
O Frio Que Nos Entra Bolsos Dentro
Crónica de um País Onde Aquecer a Casa é Artigo de Luxo
Com este frio que não se limita a entrar pelas paredes, talvez fosse altura de alguém lá em cima descobrir que a electricidade não é um luxo, mas sim o cobertor invisível que impede o país de congelar em silêncio. Este frio entra-nos pelos bolsos dentro, revira-os, encontra apenas migalhas e ainda nos dá uma palmada nas costas como quem diz “força, campeão, tu consegues!”.
Baixem o preço da electricidade, não por generosidade, mas por decência. E já agora, desçam também o IVA, porque taxar o calor como se fosse champanhe é uma piada de mau gosto contada por quem nunca teve de escolher entre ligar o aquecedor ou comprar pão. Ou ao menos finjam que sabem o que é viver num casinhoto onde o vento tem mais direitos do que o inquilino.
A Democracia do Gelo
O frio, esse velho canalha, não bate à porta: arromba-a. É democrático no toque, mas profundamente aristocrático nas consequências. Ataca primeiro os mais velhos, os mais pobres, os que vivem em casas onde o vento tem passe vitalício. Depois o Estado finge surpresa quando os hospitais ficam cheios. Há quem durma com o casaco vestido e acorde com a tosse colada aos pulmões. É quase comovente, se não fosse trágico, ver governantes a pedir “prevenção” enquanto a factura da luz é, ela própria, uma doença crónica. É adorável, no fundo é como ver alguém tropeçar na mesma pedra pela 40.ª vez e ainda culpar a gravidade.
O Sistema de Saúde chora o que a política de energia ignora. Cada pneumonia num quarto húmido, cada idoso que se embrulha em mantas de resignação e tosse como um motor de carro velho, é uma nota de rodapé nas “rendas milionárias” do sector. Pois claro que os hospitais enchem, é difícil manter pulmões quentes quando as paredes são gelo e a factura da luz é um insulto mensal.
O Luxo de Não Morrer Gelado
Pagamos tudo: energia, taxas, rendas douradas, luxos alheios, e ainda o privilégio de sermos tratados como se ligar um aquecedor fosse um capricho digno de um iate no Mediterrâneo ou de um magnata excêntrico. IVA a 23% numa necessidade básica? Claro. Porque o simples facto de tentar não morrer de frio em casa, foi elevado à categoria de luxo.
Transformaram o acto básico de ligar um aquecedor num desporto de alta finança. Aplicar 23% de IVA à electricidade é elevar o tiritar de dentes ao estatuto de “bem de luxo”. Luxo? Luxo é conseguir aquecer uma casa sem medo do fim do mês. Luxo é não tremer enquanto se abre a factura.
A Poesia do Escárnio
É de um lirismo cruel observar as barragens a transbordar enquanto o céu se desfaz em águas, essa matéria-prima generosa que nos entra pelas frinchas das janelas. A água cai do céu em torrentes, gratuita, abundante, democrática. Mas quando passa pelas mãos do sector energético, pelo circuito mágico do Kilowatt, transforma-se num néctar divino, engarrafado em tarifas que fariam corar um agiota ou morrer de vergonha um pirata.
Em Portugal, o calor humano não basta para aquecer os ossos de quem trabalhou uma vida inteira; é preciso pagar o dízimo a uma factura que mais parece um testamento de luxo. E tudo isto enquanto os senhores do sector observam, do calor dos seus gabinetes forrados a privilégio, a dança fúnebre do termómetro.
“A Constituição diz que o luxo deve ser onerado. Se a luz e o calor são luxos, então a nossa humanidade está oficialmente às escuras.”
O Choque Necessário
É preciso um choque eléctrico, mas não nos cidadãos, que já estão suficientemente electrocutados pelas contas, fritos o suficiente. O choque tem de ser nos preços, nas políticas, na lógica absurda, na narrativa delirante que transforma água abundante em ouro tarifado e que trata o aquecer de uma casa como um privilégio e não um direito básico.
Nada justifica que o povo pague a taxa da rádio enquanto as suas próprias mãos tremem de frio. É preciso mais do que vontade política; é preciso um choque eléctrico na consciência de quem decide. Que a electricidade desça, que o IVA se envergonhe e que o lucro não seja o cadáver que deixamos para trás no Inverno.
Não se pede esmola; pede-se a decência de não lucrar com o gelo que paralisa os pulmões dos mais pobres. Porque a água é de todos. A energia devia ser de todos. E o calor, esse direito básico de existir sem tremer, devia ser tão garantido como o ar que respiramos.
Mas enfim, talvez seja pedir demais num país onde até o frio paga IVA.
Até lá, continuamos assim: a tremer, a tossir, a pagar para congelar com dignidade tributada. Porque, no nosso país, o frio não entra só em nossa casa, entra-nos pelos bolsos dentro e leva o que quer, com recibo e IVA incluído. A água sobra, a chuva castiga, e a factura… essa continua a ser o fogo que não aquece, mas que queima o bolso de quem já nada tem.
